Como Tirar Seu Projeto Internacional do Campo do Sonho
Projetos internacionais deixam de ser fantasia quando viram rotina, plano financeiro, candidatura e execução paciente.


Gostamos de pensar que transformar sonhos em realidade é uma questão de acreditar o bastante e dar, um dia, o grande salto: a decisão corajosa, a virada, o momento em que a fantasia enfim se materializa. As frases de efeito reforçam essa ideia, e ela nos seduz porque dispensa o que mais tememos, que é a longa e silenciosa espera. E, no entanto, quase nenhum sonho digno desse nome se realiza num salto; realiza-se, quando se realiza, pedra sobre pedra.
1. O sonho e a impaciência
Há uma impaciência que sabota os próprios sonhos. Queremos vê-los realizados depressa, e quando a realidade não corresponde ao ritmo do desejo, concluímos que não eram para nós e os abandonamos. E, no entanto, o intervalo entre sonhar e realizar é justamente o lugar onde a maioria desiste, não por falta de capacidade, mas por excesso de pressa. Os sonhos raramente morrem de impossibilidade; morrem, quase sempre, de impaciência.

2. Gaudí e a catedral inacabada
Vale recordar um arquiteto catalão. Em 1882, começou-se em Barcelona a construção de um templo, a Sagrada Família, cuja obra Antoni Gaudí assumiria e à qual dedicaria o resto da vida, sabendo que não a veria concluída. Quando lhe observavam a lentidão, respondia, sereno, que o seu cliente não tinha pressa. Mais de um século depois, a obra só muito recentemente foi concluída, erguida por gerações que nunca conheceram o autor do sonho. Gaudí entendia o que esquecemos: que há sonhos maiores que uma única vida, e que dedicar-se a eles, mesmo sem ver o fim, não é frustração, mas grandeza.
3. A realidade feita de pedras
Disso decorre uma compreensão mais paciente do realizar. Um sonho não se torna real por um decreto da vontade, mas pela soma de atos pequenos e pouco gloriosos: o estudo de mais uma noite, a economia de mais um mês, a tentativa refeita após o fracasso, a pedra assentada hoje sobre a que se assentou ontem. Vista de perto, a realização de qualquer grande projeto é decepcionantemente comum; é feita de dias que, isoladamente, não parecem grande coisa, e que só no conjunto revelam a catedral.

4. O sonho que ultrapassa quem o sonha
E há uma dignidade em sonhar para além de si. Nem todo sonho cabe numa biografia, e alguns dos mais nobres, uma vida justa, um filho bem criado, uma obra que sirva a outros, uma causa, talvez só frutifiquem quando já não estivermos para colher. Plantar uma árvore à cuja sombra não nos sentaremos não é desperdício; é, talvez, a forma mais alta de esperança. Quem assim sonha já não exige que a realidade caiba no seu relógio.
E é talvez por isso que vale a pena buscar transformar os sonhos em realidade sem esperar o salto que nos dispensaria da espera: não confiando num momento mágico que tudo resolva, mas assentando, à maneira dos antigos construtores, uma pedra de cada vez, com a paciência de quem talvez não veja o fim; pois um sonho não se realiza num gesto, e sim ao longo dos anos, devagar, como uma obra.


