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Carreira-internacional18 de junho de 20262 min

Ajustando as Velas: O Que Empacotar na Mala de Conhecimento

Imaginamos, ao nos prepararmos para estudar fora, que a tarefa essencial seja acumular: mais documentos, mais cursos, mais certificados, mais objetos na mala, como se a segurança morasse na quantidade do que levamos. É uma ansiedade compreensível, a de quem teme faltar-lhe algo n

Ciro Moraes dos Reis
Ciro Moraes dos Reis
Fundador · Olcan
Ajustando as Velas: O Que Empacotar na Mala de Conhecimento

Imaginamos, ao nos prepararmos para estudar fora, que a tarefa essencial seja acumular: mais documentos, mais cursos, mais certificados, mais objetos na mala, como se a segurança morasse na quantidade do que levamos. É uma ansiedade compreensível, a de quem teme faltar-lhe algo num lugar onde não conhece ninguém. E, no entanto, talvez a parte mais difícil e mais útil do preparo não seja somar, mas escolher o que deixar para trás.

1. A ansiedade de quem arruma a mala

Há, em toda partida, uma versão particular do medo: a de esquecer o indispensável. Compramos adaptadores que nunca usaremos, levamos livros que não abriremos, enchemos a bagagem de garantias contra um futuro que ainda não conhecemos. O peso que carregamos é, no fundo, a medida da nossa insegurança. E poucas coisas pesam tanto quanto as certezas que trazemos sobre como o mundo deveria ser.

2. Diógenes e a tigela dispensada

Vale lembrar um homem que levou essa ideia ao limite. Por volta do ano 340 antes de nossa era, nas ruas de uma cidade grega, vivia o filósofo Diógenes, que possuía pouco mais que um manto e uma tigela. Conta-se que, ao ver um menino beber água com as mãos em concha, jogou fora a própria tigela, envergonhado de ter carregado o que não era preciso. Os antigos chamavam de autarkeia essa quieta suficiência: a arte de depender de pouco, e portanto de temer menos. Não era miséria; era liberdade, escolhida.

3. O que de fato cabe na mala de conhecimento

Disso decorre uma ideia mais leve do que seja preparar-se. A bagagem que importa, ao cruzar uma fronteira, não é a que se mede em quilos: é a disposição de aprender, a paciência diante do erro, a curiosidade que sobrevive ao cansaço. Tudo isso ocupa pouco espaço, e não se compra em loja alguma. Em contrapartida, há um excesso a deixar em casa: a pressa de julgar, a certeza de que o nosso jeito é o certo, o medo de parecer ignorante. Quem viaja leve por dentro chega mais pronto para ser transformado.

4. Ajustar as velas, e não o vento

E há, nisso, uma sabedoria velha de marinheiros. Não governamos o vento, nem o país que nos receberá, nem os imprevistos da viagem; governamos apenas o ângulo das nossas velas, isto é, a nossa disposição diante do que vier. Preparar-se, então, é menos prever tudo do que aceitar que não se pode prever, e partir assim mesmo, com o essencial e um pouco de coragem.

E é talvez por isso que vale a pena arrumar a mala ao contrário do que o medo aconselha: não enchendo-a de garantias, mas aliviando-a do que nos prende; pois o que de fato nos sustenta longe de casa não é o peso do que levamos, e sim a estranha e duradoura leveza.

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