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19 de junho de 20262 min

Superando Obstáculos: Lidando com Desafios ao Estudar no Exterior

Quando surgem os obstáculos de estudar no exterior, a burocracia que emperra, o idioma que resiste, a saudade que aperta, o dinheiro que falta, costumamos tratá-los como intrusos: defeitos a serem eliminados para que a experiência verdadeira, sem atritos, possa enfim começar. Pio

Ciro Moraes dos Reis
Ciro Moraes dos Reis
Fundador · Olcan
Superando Obstáculos: Lidando com Desafios ao Estudar no Exterior

Quando surgem os obstáculos de estudar no exterior, a burocracia que emperra, o idioma que resiste, a saudade que aperta, o dinheiro que falta, costumamos tratá-los como intrusos: defeitos a serem eliminados para que a experiência verdadeira, sem atritos, possa enfim começar. Pior, às vezes os lemos como sinais de que erramos a escolha, de que aquele lugar não é para nós. E, no entanto, vale suspeitar dessa leitura, porque ela confunde o obstáculo com um acidente, quando ele é, quase sempre, a própria matéria do caminho.

1. O obstáculo como suposto sinal

Há uma voz, nos momentos de dificuldade, que sussurra a interpretação mais desanimadora. Se está tão difícil, ela diz, talvez seja porque você não pertence aqui. É uma voz persuasiva, porque se disfarça de lucidez, mas costuma mentir: a dificuldade não prova que escolhemos mal; prova apenas que escolhemos algo que valia a pena, pois o que nada exige nada transforma. Confundir o esforço com o erro é um modo sutil de desistir do que mais nos faria crescer.

2. Ovídio e a água que fura a pedra

Vale recordar um poeta no exílio. Por volta do ano 8 de nossa era, o romano Ovídio, então no auge da fama, foi banido para Tomis, uma cidade remota às margens do Mar Negro, longe de tudo o que conhecia, entre uma língua e costumes que lhe eram estranhos. Em vez de calar, escreveu dali os Tristia, versos sobre a dor e a resistência, e legou-nos uma imagem que atravessou os séculos: a de que a gota, caindo sem pressa, acaba por furar a pedra, não pela força, mas pela constância. Quem lê aqueles poemas percebe que o exílio não o destruiu; deu-lhe, ao contrário, a matéria de uma obra. A adversidade, suportada com teimosia, raramente é só perda.

3. O obstáculo como caminho

Disso decorre uma inversão libertadora. Em vez de esperar que os obstáculos desapareçam para então viver, podemos reconhecer que atravessá-los é viver, e que cada dificuldade vencida deixa em nós uma competência que o conforto jamais ensinaria. O idioma que hoje resiste será, amanhã, a porta de uma cultura; a burocracia que hoje irrita ensina paciência e método; a saudade que hoje pesa revela o que de fato amamos. Bem encarado, o que se atravessa por nós não interrompe o caminho; é o caminho, tornado mais íngreme, e por isso mais formador.

4. A constância que vence a pedra

E há um consolo na lentidão. Não precisamos derrubar o obstáculo de um golpe, com uma força que talvez não tenhamos; basta a gota, isto é, o esforço pequeno e repetido, o estudo de mais um dia, o telefonema mais uma vez, a ida outra vez à repartição. As grandes dificuldades raramente cedem ao heroísmo de um instante; cedem, quase sempre, à insistência humilde de quem não para. E essa insistência está ao alcance até de quem se sente, naquele momento, sem forças.

E é talvez por isso que vale a pena lidar com os obstáculos de estudar fora sem os tomar por sentença: não como provas de que não pertencemos, mas como a própria matéria de uma jornada que nos refaz; pois o que de fato fura a pedra, longe de casa, não é a força de um golpe, e sim a quieta e teimosa perseverança.

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