Estudar no Exterior: Mitos e Verdades
Poucos assuntos acumulam tantas histórias prontas quanto o de estudar no exterior. Dizem que é coisa só para ricos, que dá certo sempre, que a solidão é insuportável, que o diploma estrangeiro abre todas as portas, que voltar é fracasso. Repetimos essas frases com a segurança de


Poucos assuntos acumulam tantas histórias prontas quanto o de estudar no exterior. Dizem que é coisa só para ricos, que dá certo sempre, que a solidão é insuportável, que o diploma estrangeiro abre todas as portas, que voltar é fracasso. Repetimos essas frases com a segurança de quem sabe, embora quase nunca as tenhamos verificado. E, no entanto, mito e verdade raramente se distinguem por decreto; distinguem-se, mais humildemente, pela experiência de quem se dispôs a olhar.
1. As histórias que herdamos
Vivemos cercados de relatos que não checamos. Um primo que foi e se deu mal, um conhecido que voltou rico, uma reportagem alarmante, um anúncio entusiasmado: dessas fontes desencontradas formamos convicções inteiras sobre o que nos espera lá fora. É assim que nasce o mito, não da mentira deliberada, mas do relato repetido até parecer fato. E o mito, por ser cômodo, costuma poupar-nos do trabalho de pensar.
2. Heródoto e o ver com os próprios olhos
Vale recuar à Antiguidade para encontrar um remédio. Por volta de 440 antes de nossa era, um grego chamado Heródoto percorreu boa parte do mundo conhecido, ouvindo histórias em mercados e templos, e fez algo então incomum: distinguia cuidadosamente o que lhe haviam contado daquilo que vira com os próprios olhos, a que os gregos chamavam autopsia. Não desprezava os relatos alheios, mas tampouco os tomava por verdade; reservava o veredito para o testemunho direto. Foi por essa desconfiança paciente diante do boato que ficou conhecido como o primeiro dos historiadores.
3. Separar o mito da verdade
Disso decorre um método modesto e útil para quem hesita diante da decisão. Em vez de aceitar as histórias prontas, convém perguntar a quem de fato viveu a experiência, e de preferência a vários, pois um só relato é ainda um boato. É verdade que estudar fora custa, mas há bolsas, intercâmbios e países de ensino gratuito que o mito do só para ricos convenientemente ignora; é verdade que a solidão existe, mas costuma ser companheira passageira, e não sentença; é verdade que nem tudo dá certo, mas o fracasso anunciado raramente comparece como prometido. A realidade, examinada de perto, é quase sempre mais matizada que a lenda.

4. A única verdade que conta
E há, no fim, uma verdade que nenhuma lista de mitos e verdades pode entregar de antemão: a nossa. O que será estudar fora para esta pessoa, com esta história, este orçamento, este temperamento, nenhum artigo decide; decide-se vivendo. Por isso a pergunta honesta não é se os mitos são falsos, mas se estamos dispostos a substituí-los, um a um, pela coisa mais rara e mais confiável que existe.
E é talvez por aí que vale a pena atravessar o emaranhado de mitos e verdades sobre estudar fora: não acreditando nas histórias prontas nem as rejeitando em bloco, mas reservando o juízo, à maneira de Heródoto, para o que se vê com os próprios olhos; pois contra todo boato, antigo ou novo, só há um argumento decisivo, que é a experiência.


