Como a Cultura Local Pode Impactar Seus Estudos no Exterior
Costuma-se tratar a cultura local como pano de fundo dos estudos no exterior: o cenário pitoresco diante do qual o verdadeiro aprendizado, o das salas de aula, aconteceria. Quando muito, fala-se dela como obstáculo, sob o nome de choque cultural, algo a ser administrado para que


Costuma-se tratar a cultura local como pano de fundo dos estudos no exterior: o cenário pitoresco diante do qual o verdadeiro aprendizado, o das salas de aula, aconteceria. Quando muito, fala-se dela como obstáculo, sob o nome de choque cultural, algo a ser administrado para que não atrapalhe. E, no entanto, talvez seja exatamente o contrário: a cultura do lugar não é a moldura do aprendizado, mas boa parte do próprio aprendizado.
1. A cultura vista como ruído
Há uma tentação de querer estudar fora sem se deixar afetar pelo fora. Buscamos a universidade, a nota, o diploma, e gostaríamos que o resto, os costumes estranhos, a comida diferente, o jeito alheio de tratar o tempo e o silêncio, ficasse convenientemente do lado de fora. É um equívoco gentil, mas custoso: quem se blinda contra a cultura local leva para casa um diploma e devolve intacta a própria estreiteza.
2. Humboldt e a ideia de formação
Vale recordar um pensador alemão. Wilhelm von Humboldt, nascido em 1767, ajudou a dar forma a uma ideia que os alemães chamaram de Bildung: a formação do ser humano inteiro, não pelo acúmulo de informações, mas pelo encontro com o mundo, com outras línguas, com outras maneiras de viver, que nos obrigam a recompor quem somos. Para ele, aprender uma língua não era trocar palavras por palavras, mas adquirir uma nova perspectiva sobre o mundo, pois cada idioma carrega um modo próprio de o enxergar. A cultura, nessa visão, não cerca a educação; ela é a educação.
3. O verdadeiro currículo
Disso decorre uma leitura mais generosa do desconforto. Aquele mal-estar diante do costume que não entendemos não é um defeito da viagem; é o momento exato em que algo se ensina. Aprender a esperar numa cultura paciente, a discordar numa cultura direta, a guardar silêncio numa cultura discreta, tudo isso reforma o caráter de um modo que nenhuma disciplina formal alcança. Quem se deixa impactar pela cultura local não perde tempo de estudo; estuda aquilo que não tem prova nem nota, e que, no entanto, dura a vida toda.

4. O hóspede que se deixa mudar
E há uma dignidade quieta em ser hóspede. Aquele que respeita a casa alheia, que aprende seus ritos sem deboche e sem servilismo, leva consigo, ao partir, mais do que recordações: leva uma forma ampliada de humanidade, a capacidade de se sentir um pouco em casa em mais de um mundo. É um ganho que não aparece no histórico escolar, e que é, talvez, o mais valioso de todos.
E é talvez por isso que vale a pena deixar que a cultura local nos atravesse, em vez de nos defendermos dela: não como um ruído a abafar, mas como a parte mais funda da educação que fomos buscar longe; pois aquilo que de fato amadurece em nós, longe de casa, tem menos a ver com o diploma do que com a lenta e silenciosa formação.


