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Olcan Blog30 de agosto de 20262 minRevisado em 31 de agosto de 2026

Washington e o livro que me ensinou a ouvir

Washington e o livro que me ensinou a ouvir Quando se fala em passar uma temporada nos Estados Unidos para pesquisa ou estudo, costumamos imaginar a cena gloriosa: o nome de uma instituição conhecida, o cartão de acesso, a fotografia diante de um prédio...

Ciro Moraes dos Reis
Ciro Moraes dos Reis
Fundador · Olcan
Washington e o livro que me ensinou a ouvir

Washington e o livro que me ensinou a ouvir

Quando se fala em passar uma temporada nos Estados Unidos para pesquisa ou estudo, costumamos imaginar a cena gloriosa: o nome de uma instituição conhecida, o cartão de acesso, a fotografia diante de um prédio imponente. É uma imagem compreensível, e talvez por isso incompleta. Porque o que de fato ficou da minha passagem por Washington, ainda muito jovem, como assistente de pesquisa num centro de estudos, e depois por um programa em Harvard, não foi o prestígio. Foi um aprendizado quase silencioso: o de ouvir.

Eu havia chegado, confesso, com a vaidade discreta de quem queria contribuir, opinar, mostrar serviço. Trabalhava em torno de um livro sobre direitos das mulheres, e me imaginava útil sobretudo pelas ideias que pudesse oferecer. Demorei a entender que a minha tarefa mais valiosa era outra, mais humilde: organizar, escutar, sintetizar, devolver com cuidado a voz de outras pessoas.

Alexis de Tocqueville, o jovem francês que por volta de 1831 atravessou os Estados Unidos para tentar entender uma democracia ainda em formação, dizia que viajava menos para julgar e mais para compreender. Há algo de consolador nessa mod'estia deliberada. Eu, com muito menos talento e muito mais pressa, fui aprendendo o mesmo aos tropeços: que estar num ambiente internacional de excelência não é, antes de tudo, uma oportunidade de brilhar, mas uma oportunidade de escutar com mais finura do que se escuta em casa.

Essa é uma das confusões mais comuns de quem chega aos centros do mundo vindo da periferia dele. Imaginamos que precisamos provar valor a cada frase, ocupar cada silêncio, demonstrar que merecemos a cadeira. E, com isso, perdemos justamente o que aqueles ambientes têm de melhor a oferecer: o acesso a perguntas mais bem formuladas, a repertórios mais amplos, a modos de pensar que ainda não eram os nossos.

O que aprendi em Washington não foi a falar como um americano. Foi a perceber que o meu sotaque, a minha origem baiana, a minha trajetória improvável, não precisavam ser escondidos. Precisavam ser traduzidos. Havia, na minha forma de ver o Brasil, na minha experiência de desigualdade e improviso, um tipo de conhecimento que aquelas salas não tinham. Mas esse conhecimento só servia quando eu parava de competir e começava a contribuir.

Quando hoje acompanho pesquisadores e jovens profissionais que sonham com uma temporada fora, repito a mesma coisa, sem pressa. Não vão para provar que são os mais inteligentes da sala. Vão para descobrir que a inteligência, propriamente entendida, é quase sempre uma forma generosa de atenção. Quem chega humilde sai maior. Quem chega armado de certezas costuma sair menor.

E talvez seja essa a herança mais duradoura de uma boa experiência internacional: não o nome da instituição no currículo, que envelhece, mas a capacidade reaprendida de ouvir o outro, de domesticar a própria pressa, de servir a uma ideia maior do que nós, com aquela atenção paciente que, no fim, é talvez a forma mais antiga de respeito.

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