Voltar à Transparência: a corrupção não respeita fronteiras
Voltar à Transparência: a corrupção não respeita fronteiras Gostamos de pensar a corrupção como um problema nacional, quase doméstico: um escândalo aqui, uma denúncia ali, um país que parece não aprender a lição. É uma forma reconfortante de ver o assunto,...

Voltar à Transparência: a corrupção não respeita fronteiras
Gostamos de pensar a corrupção como um problema nacional, quase doméstico: um escândalo aqui, uma denúncia ali, um país que parece não aprender a lição. É uma forma reconfortante de ver o assunto, porque mantém o mal à distância de uma fronteira. E é, infelizmente, uma forma incompleta. O dinheiro desviado raramente respeita mapas. Ele cruza oceanos, troca de moeda, se esconde em outros idiomas, encontra abrigo justamente onde imaginamos haver mais ordem.
Voltei a trabalhar com transparência e integridade pública depois de anos noutros mundos, e foi como reencontrar uma pergunta antiga sob uma luz nova. Hoje coordeno, numa organização dedicada ao combate à corrupção, uma rede que atravessa países de língua portuguesa: Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, e outros. E o que essa rede revela, dia após dia, é que a impunidade também se internacionalizou, e que nenhum país, sozinho, dá conta de enfrentá-la.

Montesquieu, o magistrado francês que em 1748 escreveu sobre a necessidade de que o poder contivesse o poder, já intuía que a liberdade depende menos da bondade dos governantes e mais da solidez das instituições. Há algo de consolador e de exigente nessa ideia. Consolador porque sugere que não dependemos de heróis. Exigente porque nos lembra que instituições são frágeis, e que precisam ser cuidadas, devagar, por muitas mãos, em muitos países ao mesmo tempo.
Um caso de corrupção transnacional, desses que ligam uma empreiteira a um regime distante, me ensinou isso de maneira concreta. Para enfrentá-lo, foi preciso reunir jornalistas, advogados, pesquisadores e autoridades de lugares diferentes, cada um com seu fragmento de verdade. Sozinho, nenhum daqueles fragmentos bastava. Juntos, começavam a formar um quadro que o silêncio havia mantido disperso.
Essa é, talvez, a forma menos celebrada de carreira internacional. Não a do palco, mas a da costura. Há quem se internacionalize para brilhar, e há quem se internacionalize para conectar. Reunir um congresso de jornalismo investigativo com participantes de vários países, articular uma denúncia em fóruns internacionais, traduzir entre culturas jurídicas distintas: nada disso rende fotografia gloriosa. Mas é nesse trabalho paciente, quase invisível, que se constrói alguma justiça possível.
Reencontrei, nesse retorno, uma certeza que a juventude costuma ter de forma ingênua e que a experiência devolve de forma madura: a de que vale a pena dedicar parte da vida à coisa pública. Não por heroísmo, do qual desconfio, mas por uma espécie de fidelidade. Quem teve a sorte de circular pelo mundo, de estudar fora, de aprender outros idiomas, carrega, queira ou não, uma dívida com os que ficaram. E uma das formas de honrar essa dívida é colocar o repertório internacional a serviço de quem tem menos acesso a ele.
Quando hoje penso em jovens que sonham com carreiras globais, gosto de lembrar que o mundo não precisa apenas de mais gente bem-sucedida. Precisa de gente que use o que aprendeu lá fora para fortalecer o que é frágil aqui dentro.
E talvez seja essa a versão mais digna de uma vida internacional: não a de quem atravessa fronteiras para escapar do próprio país, mas a de quem atravessa fronteiras para voltar, de algum modo, mais capaz de cuidar dele, e do pequeno pedaço de mundo que lhe coube zelar.
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