Trinta e cinco conversas sobre o medo de decidir
Trinta e cinco conversas sobre o medo de decidir Costumamos acreditar que o que trava o setor público é a preguiça, a má-fé ou a incompetência. É uma explicação cômoda, porque nos coloca sempre do lado de fora do problema, como observadores indignados. Eu...

Trinta e cinco conversas sobre o medo de decidir
Costumamos acreditar que o que trava o setor público é a preguiça, a má-fé ou a incompetência. É uma explicação cômoda, porque nos coloca sempre do lado de fora do problema, como observadores indignados. Eu também carregava essa crença, com a tranquilidade de quem nunca havia se sentado de verdade do outro lado da mesa. Até que passei meses, numa pesquisa sobre segurança jurídica, conversando com gestores públicos país afora.
Foram cerca de trinta e cinco entrevistas. E o que ouvi, conversa após conversa, não foi preguiça nem cinismo. Foi medo.

Medo de assinar. Medo de decidir e, depois, ser responsabilizado por uma interpretação que mudaria anos mais tarde. Medo de um órgão de controle que chegaria, no futuro, julgando o passado com as regras do presente. Descobri que muita imobilidade que eu atribuía à falta de vontade era, na verdade, o produto silencioso de uma insegurança institucional. É difícil ser ousado quando a coragem pode, depois, ser tratada como crime.
Kierkegaard, o filósofo dinamarquês que em 1844 escreveu sobre a angústia, dizia que ela é a vertigem da liberdade, o que sentimos diante da pluralidade de caminhos possíveis. Há algo de consolador nessa ideia, quando aplicada ao trabalho. O gestor paralisado não é, em geral, um covarde. É alguém diante de uma decisão cujas consequências não consegue prever, sabendo que qualquer escolha poderá, mais tarde, ser usada contra ele.
Essa pesquisa me ensinou uma forma de humildade que eu não tinha. Aprendi a desconfiar das minhas indignações fáceis. É simples acusar de imobilismo quem não decide, quando não é a nossa assinatura que está em jogo. É mais difícil, e mais justo, entender o sistema de incentivos que produz, todos os dias, o medo que tanto criticamos.
Essa é, talvez, uma lição que vale para muito além do serviço público. Tendemos a explicar o comportamento dos outros pelo caráter, e o nosso, pelas circunstâncias. Vemos preguiça onde há exaustão, má-fé onde há receio, descaso onde há, no fundo, uma pessoa tentando se proteger de um ambiente que pune mais o erro do que premia o acerto.
O que me ficou daquelas trinta e cinco conversas foi menos um diagnóstico técnico e mais uma reconciliação. Saí delas com menos desprezo e mais respeito por quem carrega, em silenci'o, o peso de decidir em nome de outros. A boa política pública, entendi, não nasce só de melhores gestores. Nasce de melhores regras, que tornem a coragem menos perigosa e a integridade menos solitária.
Quando hoje penso em quem deseja servir ao público, no Brasil ou em qualquer país, evito tanto o entusiasmo ingênuo quanto o cinismo confortável. Ofereço algo mais modesto: a sugestão de que, antes de julgar a inércia alheia, vale escutar o medo que costuma estar por baixo dela.
E talvez seja essa a forma mais útil de começar a melhorar qualquer instituição: não pela acusação, mas pela escuta, por essa atenção paciente aos motivos invisíveis que, no fim, costumam explicar muito mais do que a nossa pressa de condenar.
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