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Olcan Blog30 de agosto de 20262 minRevisado em 31 de agosto de 2026

Ser escolhido sem saber direito por quê: a temporada Botín

Ser escolhido sem saber direito por quê: a temporada Botín Acreditamos que ser selecionado para um programa concorrido é a prova definitiva de que somos, enfim, excepcionais. É uma crença sedutora, e talvez por isso perigosa. Quando fui escolhido, ainda...

Ciro Moraes dos Reis
Ciro Moraes dos Reis
Fundador · Olcan
Ser escolhido sem saber direito por quê: a temporada Botín

Ser escolhido sem saber direito por quê: a temporada Botín

Acreditamos que ser selecionado para um programa concorrido é a prova definitiva de que somos, enfim, excepcionais. É uma crença sedutora, e talvez por isso perigosa. Quando fui escolhido, ainda jovem, para uma temporada de formação de liderança que passava por instituições como Brown, nos Estados Unidos, e por Salamanca, na Espanha, esperei sentir aquela certeza luminosa de ter chegado. Senti, em vez disso, uma pergunta que me acompanharia por anos: por que eu?

Havia ali jovens brilhantes, de muitos países ibero-americanos, cada um com uma trajetória que parecia, vista de fora, mais sólida que a minha. Eu, vindo do interior da Bahia, ficava tentando descobrir o critério secreto que me havia incluído naquela sala, como quem procura, num presente caro, a etiqueta com o preço, para saber se merece.

Levei tempo para entender que talvez não houvesse erro algum na minha presença. Apenas uma aposta.

Em Salamanca, cuja universidade existe desde o século treze, conta-se que o mestre Fray Luis de León, ao voltar à cátedra por volta de 1576 depois de anos preso pela Inquisição, teria retomado a aula com uma frase simples: como díamos ayer, como dizíamos ontem. Há algo de profundamente consolador nesse gesto. A ideia de que é possível retomar, sem estardalhaço, o fio interrompido de uma vida, como se a dignidade consistisse menos em nunca cair e mais em voltar a falar de onde se parou.

Foi mais ou menos isso que aprendi naquela temporada. Que ser escolhido não é um veredito sobre o nosso valor absoluto, mas uma aposta que alguém faz no nosso potencial. As bancas, as fundações, os comitês não procuram os perfeitos, que não existem. Procuram pessoas em quem valha a pena investir, trajetórias que sugiram, ainda que de forma incerta, uma promessa.

Essa é, talvez, a confusão mais cara de quem recebe uma oportunidade rara. Passamos tanto tempo tentando provar que a merecíamos, que nos esquecemos da única coisa que de fato importa: honrá-la. A pergunta produtiva não é por que eu, que paralisa, mas e agora, que comp'romete. Não cabe ao escolhido auditar o critério de quem o escolheu. Cabe a ele transformar a aposta em algo que, com o tempo, pareça justificada.

A síndrome do impostor, descobri, não se cura provando-se digno o tempo todo. Ela se acalma quando deslocamos a atenção de nós mesmos para a tarefa. Quem vive perguntando se merece estar na sala costuma render menos do que quem, aceitando a cadeira, decide simplesmente trabalhar.

Quando hoje converso com jovens aprovados em programas e bolsas que mal acreditam ter conquistado, repito o que aprendi com alguma demora. Não gastem energia decifrando por que foram escolhidos. Gastem energia tornando a escolha acertada.

E talvez seja essa a forma mais serena de carregar uma oportunidade grande: não como uma dívida a ser explicada, mas como uma confiança a ser retribuída, com aquele tipo de trabalho quieto que, no fim, é a única resposta verdadeira à pergunta sobre o nosso merecimento.

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