Salvador, e o primeiro mapa-múndi que coube numa parede
Salvador, e o primeiro mapa-múndi que coube numa parede Gostamos de imaginar que uma carreira internacional começa num aeroporto, com a primeira passagem na mão e o coração batendo descompassado. É uma imagem bonita, e quase sempre tardia. Porque, no meu...

Salvador, e o primeiro mapa-múndi que coube numa parede
Gostamos de imaginar que uma carreira internacional começa num aeroporto, com a primeira passagem na mão e o coração batendo descompassado. É uma imagem bonita, e quase sempre tardia. Porque, no meu caso, ela começou muito antes, num lugar improvável: diante de um mapa-múndi colado numa parede, ainda menino, em Nova Soure, no interior da Bahia, onde o mundo parecia terminar nos limites do município.
Eu olhava aquele mapa do jeito que se olha uma coisa impossível. Os nomes dos países tinham gosto de ficção. Salvador, a capital, já me parecia distante o bastante para ser quase um país estrangeiro. O resto, os oceanos, os continentes, as cidades de sílabas difíceis, pertencia a outras pessoas, de outra espécie, nascidas com um direito que eu não tinha certeza de possuir.

Quando finalmente me mudei para Salvador, para estudar, descobri uma verdade pequena e decisiva. A distância entre o interior e a capital, que eu imaginava intransponível, era apenas uma estrada. E se aquela era atravessável, talvez as outras também fossem. O mapa, que antes me intimidava, começou a parecer menos um muro e mais um convite.
Ptolomeu, o geógrafo que por volta do ano 150 tentou desenhar o mundo conhecido a partir de Alexandria, cometeu muitos erros de proporção, encolheu oceanos, inventou contornos. Há algo de consolador nisso. Os primeiros mapas eram quase todos imprecisos, feitos por gente que nunca havia pisado nos lugares que desenhava, movida mais pela imaginação do que pela certeza. Talvez todo começo seja assim: a gente desenha o mundo antes de conhecê-lo, e erra a escala por falta de experiência, não por falta de coragem.
O que aquele menino diante da parede não sabia é que o tamanho do mundo não é fixo. Ele encolhe à medida que caminhamos. Cada viagem, cada idioma, cada fronteira atravessada vai corrigindo a escala antiga, aquela que a infância, por medo ou por falta de referência, havia exagerado. O mundo não ficou menor porque perdeu grandeza. Ficou menor porque eu fui ficando, devagar, do tamanho dele.
Essa é, talvez, a confusão mais antiga de quem nasce longe dos centros. Acreditamos que o problema é a distância geográfica, quando o obstáculo verdadeiro é a distância imaginada, aquela crença silenciosa de que certos lugares, certas salas, certas vidas não foram feitas para gente como nós. É uma fronteira interna, e costuma ser a mais difícil de cruzar.
Quando hoje converso com jovens do interior, de qualquer interior, evito as frases de estímulo fáceis. Digo apenas, com alguma honestidade, que o primeiro mapa que precisamos redesenhar não é o do mundo, mas o de nós mesmos. É preciso suspeitar, com paciência, da escala que nos ensinaram a temer.
E talvez seja esse o aprendizado que eu guardaria daquela parede antiga: o de que ninguém nasce sabendo o próprio tamanho, e que descobri-lo é quase sempre uma questão de andar um pouco mais longe do que a infância julgava possível, até que o mundo, antes imenso, caiba de novo, com naturalidade, na palma de uma mão.
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