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29 de agosto de 20265 min

O talento nasce em qualquer lugar. A oportunidade é que chega atrasada.

A travessia de um menino de Nova Soure (interior da Bahia) que foi ao mundo — LSE, Harvard, Washington — e voltou o olhar para casa. Uma história sobre distância, oportunidade e quem abre caminho.

Ciro Moraes dos Reis
Ciro Moraes dos Reis
Fundador · Olcan
O talento nasce em qualquer lugar. A oportunidade é que chega atrasada.

Pergunte a Ciro Moraes dos Reis sobre o dia em que apertou a mão da Rainha da Inglaterra e ele muda de assunto. Não é falsa modéstia. É que, para ele, a cena não é o ponto. O ponto fica a um oceano dali: uma estrada de terra em Nova Soure, no sertão da Bahia, onde um menino media o mundo em horas de ônibus e desconfiava - sozinho - que devia haver mais.

Ninguém, naquele lugar, dizia em voz alta que ele podia chegar longe. Essa frase ele teve de inventar para si mesmo. Depois passou a vida provando que era verdade.

A primeira travessia foi curta no mapa e enorme na biografia: Salvador, primeiro o Instituto Federal da Bahia e, em seguida, a Universidade Federal da Bahia, o Direito. Foi ali que ele descobriu o mecanismo que mudaria tudo - bolsas, editais, programas. Portas que alguém, em algum lugar, tinha deixado destrancadas. Ele foi empurrando uma de cada vez.

O que veio depois ele costuma resumir com uma pressa quase impaciente, como quem tem receio de parecer que se gaba: três anos liderando jovens na AIESEC, com escalas na Romênia e na Argentina. Pesquisa em Washington, no Woodrow Wilson Center. Formação em Brown, em Salamanca e na FGV, pela Fundação Botín. Uma temporada em Harvard. E então Londres: bolsista Chevening, mestrado na London School of Economics. E, sim - em algum ponto no meio disso - a tal da Rainha.

Listado de uma vez, parece a biografia de outra pessoa. Ele sabe disso. É exatamente por isso que não gosta de listar.

Mas reduzir a viagem a uma fileira de carimbos é perder o essencial. Carimbo de passaporte não ensina nada; o que ensina é o que acontece entre um voo e outro - e, a cada fronteira, o mundo não ficava maior. Ele é que ficava.

Foi numa cidade pequena da Romênia - um nome que ele não saberia soletrar antes de pousar lá - que aprendeu a primeira lição da estrada: ambição e generosidade soam igual em qualquer idioma. Coordenar jovens de dezenas de países ao mesmo tempo ensina rápido que ninguém constrói nada grande sozinho.

Em Buenos Aires, descobriu que liderar não era mandar, e sim criar as condições para os outros crescerem. Saiu de lá com um espanhol de sotaque baiano e a primeira suspeita do próprio ofício: abrir caminho para quem vem atrás.

Em Washington, sentou em salas onde se discutiam direitos, democracia e poder - os assuntos que, vistos de Nova Soure, pareciam grandes demais para caber numa vida só. Ali aprendeu a medir a distância entre o que se escreve sobre um país e o que se vive nele.

E, no meio de tudo, caminhou centenas de quilômetros pelo Caminho de Santiago - do jeito que se caminha quando se está tentando entender a própria pressa. Aprendeu que travessias longas não se vencem com fôlego, e sim com contância: um passo, e depois o seguinte.

Há uma sorte particular reservada a quem se põe a caminho: portas que se abrem na hora exata, gente que aparece para apontar a direção, um sim inesperado vindo de longe. Ele nunca soube explicar essa sorte. Só aprendeu duas coisas sobre ela - que ela favorece quem ousa partir, e que só vale a pena se for devolvida ao próximo viajante.

Quando finalmente chegou a Londres, a cidade que lá em Nova Soure soaria como ficção científica, já não era um menino conferindo mapas. Era alguém que tinha aprendido a pertencer a qualquer sala em que entrasse.

Mas a parte que faz uma plateia se inclinar para a frente não são os diplomas. É o que ele fez com eles.

Nas eleições de 2022, Ciro estava do lado de dentro de uma das maiores plataformas de vídeo do mundo, o TikTok, na linha de frente contra a desinformação e o discurso de ódio. Trabalhar numa big tech global significava coordenar times espalhados por vários fusos e culturas, traduzir o Brasil para quem decidia do outro lado do planeta e, ao mesmo tempo, abrir portas para que criadores e profissionais brasileiros encontrassem seu espaço num palco internacional. Coordenou um conselho de nove especialistas de renome nacional, organizou ciclos de debate e mesas com pesquisadores e estruturou parcerias técnicas. Enquanto o país discutia, em voz alta, a confiança nas urnas, ele trabalhava - em silêncio - para que ela não ruísse.

Não parou aí. Hoje, numa organização internacional dedicada à transparência, faz um trabalho de mesma natureza em outra frente: articula uma rede de jornalismo investigativo e combate à corrupção que atravessa o mundo lusófono, costurando equipes e instituições de vários países em torno de uma mesma régua. De novo, o papel é o de ponte - colocar o Brasil em diálogo com padrões internacionais e dar a profissionais daqui um lugar numa conversa global. São temas que ele não estudou de longe: viveu por dentro.

E sabe contá-los. Já foi entrevistado por Fátima Bernardes diante de uma plateia; já segurou uma transmissão ao vivo com milhares de pessoas do outro lado da tela. Quem o ouve raramente guarda os números - guarda a sensação de que a distância entre o sertão e o mundo é menor do que ensinaram.

Este poderia ser o final feliz: o interiorano que foi longe. Mas as histórias que importam não terminam no auge de quem as vive - terminam quando a pessoa se vira para trás.

Porque há um detalhe que ele faz questão de não esconder: deu sorte algumas vezes. Cada porta que empurrou, empurrou no escuro, sem ninguém que já tivesse feito o caminho para dizer "é por aqui". E sorte é uma forma cruel de distribuir oportunidade - ela quase nunca chega a quem nasce longe do mapa.

Foi essa conta que não fechou. Se o talento está espalhado pelo Brasil inteiro - e está -, o que falta não é gente capaz. É caminho. É alguém do outro lado da porta dizendo, em voz alta, aquilo que ele um dia teve de inventar sozinho: você pode chegar lá, e eu te mostro como. Hoje é isso que ele faz - caminha ao lado de quem está começando a própria travessia, para que ninguém mais precise atravessar no escuro. Chama esse trabalho de Olcan.

Talvez seja por isso que, quando Ciro fala - num palco, num podcast, numa roda -, as pessoas escutam diferente. Não é o currículo que prende. É o reconhecimento: a estrada de terra que cada um carrega dentro de si, e a suspeita, enfim dita em voz alta, de que ela leva a algum lugar.

O mundo continua grande e colorido. A novidade é que ele não precisa mais acontecer só em outro endereço.

Se quiser saber mais, tem mais detalhes nesse podcast: https://www.youtube.com/watch?v=7wS4jBAp3U0

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