O primeiro inverno: Iaşi, e a saudade que eu não sabia nomear
O primeiro inverno: Iaşi, e a saudade que eu não sabia nomear Gostamos de imaginar o primeiro intercâmbio como uma sequência de descobertas felizes: a cidade nova, a língua nova, os amigos improváveis, as fotografias que depois contam uma história limpa e...

O primeiro inverno: Iaşi, e a saudade que eu não sabia nomear
Gostamos de imaginar o primeiro intercâmbio como uma sequência de descobertas felizes: a cidade nova, a língua nova, os amigos improváveis, as fotografias que depois contam uma história limpa e iluminada. É uma imagem generosa, e talvez por isso enganosa. Porque a parte que mais me formou, quando atravessei o Atlântico ainda muito jovem, pela AIESEC, para um estágio numa cidade chamada Iaşi, no leste da Romênia, não foi a euforia. Foi o frio.
Não apenas o frio do termômetro, embora ele também, severo, indiferente, novo para um corpo nascido no calor da Bahia. Era um frio mais interior, feito de fuso horário, de comida estranha, de um idioma que eu não falava e de um silêncio que, pela primeira vez, ninguém ao redor sabia preencher por mim.

Foi ali que conheci uma palavra que ainda não sabia nomear. A saudade chega, no primeiro intercâmbio, como uma visita inesperada. Não avisa, não pede licença, e tem o mau gosto de aparecer nos momentos pequenos: o cheiro de um tempero que não existe, a vontade de ligar para casa na hora errada, a descoberta de que rir de uma piada exige, agora, uma tradução que sempre chega atrasada.
Ovídio, o poeta romano que por volta do ano 8 foi exilado para as margens frias do Mar Negro, nem tão longe dali, passou os últimos anos escrevendo sobre a dor de estar longe. Há algo de consolador em saber que, há dois mil anos, um homem já sentia, naquela mesma latitude gelada, a aflicção de pertencer a um lugar que ficou para trás. A saudade, ao que parece, é mais antiga do que qualquer um de nós, e nenhum de nós é poupado dela.
O que aprendi naquele inverno não foi a vencer a saudade. Foi a conversá-la. Descobri que ela não era sinal de fraqueza, nem prova de que eu havia errado ao sair. Era apenas o preço, justo e terníssimo, de ter raízes. Só sente falta quem teve algo digno de ser amado. E havia, na minha mala pequena, muito a ser amado: uma família, uma cidade, um jeito de viver que eu agora via de longe, com mais nitidez.
Essa é, talvez, a lição menos divulgada de quem decide estudar ou trabalhar fora. A adaptação não consiste em deixar de sentir. Consiste em aprender a caminhar carregando o que se sente. O frio não some porque desejamos; aprendemos, com o tempo, a vestir mais camadas, a procurar o café quente, a fazer da rotina um pequeno abrigo.
Quando hoje converso com jovens que vão partir pela primeira vez, evito as promessas fáceis. Não digo que será só alegria, porque não foi. Digo, com alguma ternura, que vale a pena, e que a saudade que virão a sentir não é um aviso de retorno, mas a confirmação de que algo importante ficou bem cuidado dentro deles.
E talvez seja esse o primeiro aprendizado real de qualquer travessia: o de que partir não cura a solidão nem extingue o pertencimento, mas nos ensina, devagar e sem testemunhas, a habitar os dois ao mesmo tempo, o longe e o perto, o frio lá fora e a brasa, pequena e teimosa, que insistimos em levar conosco.
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