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Olcan Blog30 de agosto de 20262 min

O dia em que apertei a mão da Rainha e ainda assim me senti de Nova Soure

O dia em que apertei a mão da Rainha e ainda assim me senti de Nova Soure Imaginamos que certos momentos têm o poder de nos transformar de uma vez: o dia da posse, o dia da formatura, o dia em que conhecemos alguém diante de quem o mundo inteiro se cala....

Ciro Moraes dos Reis
Ciro Moraes dos Reis
Fundador · Olcan
O dia em que apertei a mão da Rainha e ainda assim me senti de Nova Soure

O dia em que apertei a mão da Rainha e ainda assim me senti de Nova Soure

Imaginamos que certos momentos têm o poder de nos transformar de uma vez: o dia da posse, o dia da formatura, o dia em que conhecemos alguém diante de quem o mundo inteiro se cala. Acreditamos que, depois deles, seremos finalmente outra pessoa, mais segura, mais legítima, livre da antiga dúvida sobre o próprio valor. É uma esperança comovente, e quase sempre falsa.

Como bolsista Chevening, durante o mestrado na London School of Economics, vivi um desses momentos que parecem grandes demais para uma biografia iniciada em Nova Soure. Estive, junto a outras pessoas, diante da Rainha Elizabeth II. Apertei uma mão que a História havia apertado tantas vezes. E esperei, confesso, sentir-me transformado.

O que senti, em vez disso, foi uma espécie de ternura por mim mesmo. Porque, mesmo ali, no centro de um cerimonial antigo, eu continuava sendo o menino do interior da Bahia que um dia não sabia se alguém como ele teria direito a essas salas. A grandeza do momento não apagou a origem. Apenas a iluminou.

A própria London School of Economics foi fundada em 1895 por um grupo de reformadores discretos, gente mais interessada em estudar a pobreza e a desigualdade do que em celebrar o poder. Há algo de consolador em lembrar disso. As instituições que mais impressionam de fora foram, quase todas, erguidas por pessoas inseguras, falhas, movidas tanto por ideais quanto por dúvidas. Não existe um lugar no mundo, por mais alto, habitado apenas por gente que nasceu certa de pertencer.

Essa talvez seja a confusão mais persistente de quem vem de longe. Acreditamos que a síndrome do impostor desaparecerá quando alcançarmos prestígio suficiente. Mas ela não some com o título, nem com a bolsa, nem com o aperto de mão de uma rainha. Ela apenas se acalma, devagar, quando paramos de exigir de nós a prova definitiva de que merecemos estar onde estamos.

O que aprendi naquele dia não foi que eu havia me tornado importante. Foi que a importância, propriamente entendida, não muda quem somos por dentro. O cerimonial passa. A fotografia amarela. E o que resta é a mesma pessoa, com as mesmas raízes, agora apenas com a prova quieta de que a distância entre Nova Soure e Londres era atravessável, ainda que ninguém houvesse me garantido isso de antemão.

Quando hoje converso com jovens brasileiros que sonham com bolsas como o Chevening, evito alimentar a fantasia de que a aprovação cura toda insegurança. Digo, com mais honestidade, que eles levarão consigo, para onde forem, o lugar de onde vieram. E que isso não é um peso a esconder, mas talvez a parte mais interessante do que têm a oferecer.

E assim, sem aplauso e sem pressa, talvez seja esta a lição mais gentil de uma grande conquista: a de que ela não nos pede para deixar de ser quem éramos, e sim para finalmente reconciliar, numa mesma pessoa, o menino que duvidava e o homem que, por um instante, esteve diante de uma rainha.

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