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Olcan Blog30 de agosto de 20262 min

O Caminho de Santiago e a pressa que não cabia na mochila

O Caminho de Santiago e a pressa que não cabia na mochila Vivemos convencidos de que avançar é sempre uma questão de velocidade. Acreditamos que chegar antes é chegar melhor, que a press'a é prova de ambição, que parar é quase uma falha moral. É uma...

Ciro Moraes dos Reis
Ciro Moraes dos Reis
Fundador · Olcan
O Caminho de Santiago e a pressa que não cabia na mochila

O Caminho de Santiago e a pressa que não cabia na mochila

Vivemos convencidos de que avançar é sempre uma questão de velocidade. Acreditamos que chegar antes é chegar melhor, que a press'a é prova de ambição, que parar é quase uma falha moral. É uma crença moderna, herdada de um século apaixonado por motores e relatórios, e ela nos acompanha mesmo quando deix'amos o trabalho para trás. Levei essa pressa comigo, como bagagem extra, quando comecei a caminhar pelo Caminho de Santiago, na Espanha.

Nos primeiros dias, eu caminhava como quem cumpre uma meta. Contava quilômetros, calculava etapas, comparava meu ritmo ao dos outros, sofria com bolhas que eu mesmo havia provocado por excesso de ânimo. Tratava uma peregrinação de séculos como se fosse uma planilha a ser concluída. O corpo, mais sábio que eu, foi o primeiro a protestar.

Foi preciso doer para que eu desacelerasse.

Peregrinos percorrem aquele caminho desde por volta do século nono, atravessando as mesmas planícies, os mesmos vilarejos de pedra, a mesma luz que se deita devagar sobre os campos da Galiza. Há algo de consolador em pisar um chão tão antigo. Por mil anos, gente comum, com dúvidas comuns, fez aquele mesmo percurso a pé, sem nenhuma pressa de chegar, porque haviam entendido algo que eu ainda precisava aprender: que o sentido nem sempre está no destino, e quase sempre se revela no modo como caminhamos.

Descobri, etapa após etapa, que a mochila só carrega o essencial. Tudo o que é excesso, o corpo cobra. E percebi que o mesmo valia para a vida que eu havia deixado em casa: a pressa, a ansiedade de provar valor, a necessidade constante de estar adiante, nada disso cabia, de fato, naquilo que importava. Eram pesos que eu vinha carregando sem necessidade, e que o caminho, com gentileza, foi me convidando a soltar.

Essa é, talvez, uma lição que toda carreira internacional acaba ensinando, mais cedo ou mais tarde. Imaginamos a internacionalização como uma corrida: sair rápido, chegar rápido, vencer. Mas as travessias que mais transformam costumam ser as mais lentas. A fluência de um idioma, a construção de uma rede, a maturação de uma candidatura, o pertencimento a um lugar novo, nada disso obedece a prazos de planilha. Tudo isso pede caminhada, não sprint.

Quando hoje converso com quem deseja mudar de vida, de país, de profissão, sinto vontade de oferecer menos urgência e mais paciência. Não porque os prazos não existam, eles existem, e a vida é curta. Mas porque a pressa, levada longe demais, costuma estragar exatamente aquilo que mais desejamos: a alegria de chegar inteiro, e não apenas de chegar.

E talvez seja esse o aprendizado mais quieto de uma longa caminhada: o de que avançar nem sempre é ir depressa, e que há uma sabedoria antiga, guardada nos passos de quem nos antecedeu, em aceitar que algumas coisas só se revelam a quem aprende, com alguma humildade, a andar no ritmo do próprio fôlego.

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