Voltar ao hub
30 de maio de 20264 minRevisado em 31 de agosto de 2026

Nascer Longe do Centro do Mundo

Ciro Moraes dos Reis
Ciro Moraes dos Reis
Fundador · Olcan
Nascer Longe do Centro do Mundo

Habituamo-nos a pensar que o lugar onde se nasce decide, em boa parte, aquilo que se pode chegar a ser; que existe um centro do mundo, luminoso e distante, onde as oportunidades se concentram, e uma periferia paciente, que delas apenas ouve falar; e que a quem nasceu longe resta, quando muito, o consolo modesto de sonhar. É uma convicção antiga, herdada, e quase nunca examinada à luz do dia. No fundo, ela nos sussurra que há vidas inteiras decididas de antemão por um mapa; e nós, por uma espécie de cansaço herdado, tendemos a acreditar.

1. A suspeita de quem nasce longe do centro

Há, em quase todos nós que crescemos longe dos grandes centros, uma suspeita silenciosa de que as portas importantes se abrem em outro lugar, e para outras pessoas. A suspeita raramente se anuncia em voz alta; ela trabalha de viés, no fim da tarde, quando comparamos a nossa cidade pequena, o nosso diploma improvável, a nossa pronúncia, com a paisagem reluzente que o mundo do trabalho gosta de exibir. Talvez valha a pena lembrar que essa inquietação não nasceu conosco, nem com a internet: ela é antiga, herdada, e foi muitas vezes confundida com falta de mérito quando era, no fundo, apenas distância.

2. O talento sempre esteve em toda parte; a oportunidade, não

Há, nisso, uma injustiça quieta e muito antiga. O talento, a curiosidade, a vontade de fazer bem-feito sempre estiveram distribuídos por igual entre os povos, espalhados sem critério por todas as cidades pequenas do mundo; a oportunidade, porém, raramente seguiu o mesmo mapa generoso. O economista indiano Amartya Sen, que por volta de 1999 propunha pensar o desenvolvimento não como acúmulo de riqueza, mas como ampliação daquilo que as pessoas são efetivamente capazes de ser e de fazer, deu a essa intuição uma forma serena: chamou de capacidades a liberdade real de cada um escolher a vida que tem razões para valorizar. Bem compreendido, o que falta a quem nasce na periferia quase nunca é talento; é a porta.

E há, talvez, uma versão particularmente nossa dessa distância. Quem cresce numa cidade do interior, ou numa periferia de grande cidade do sul do mundo, aprende cedo a desconfiar de que o futuro acontece sempre em outro fuso horário, noutra língua, com gente de outro tipo. É um receio compreensível, e merece compaixão; mas ele raramente é um bom conselheiro, e quase nunca diz a verdade inteira.

3. Mainz, por volta de 1450

Vale a pena, aqui, desviar por um instante e atravessar mais de cinco séculos. Por volta de 1450, numa cidade às margens do rio Reno, um ourives chamado Johannes Gutenberg montou, com tipos de metal e muita paciência, uma máquina que faria o conhecimento deixar de ser privilégio de mosteiros e de cortes. Antes dela, um livro era um objeto raro, copiado à mão por meses, guardado a sete chaves; depois dela, devagar, a palavra escrita começou a pertencer a quem soubesse ler, viajando por estradas, portos e feiras até gente que jamais entraria num palácio. Não foi um gesto ruidoso, nem imediato; foi a lenta percepção de que o saber, quando se torna acessível, deixa de ser herança de poucos e passa a ser uma espécie de bem comum. Talvez toda ferramenta que hoje aproxima o conhecimento de quem estava longe seja parente distante daquela prensa.

4. O conhecimento como ferramenta, e a tecnologia como porta

Se aceitarmos isso, a tecnologia muda de natureza diante de nós. Ela deixa de ser um troféu reservado a quem programa, a quem mora nas capitais ou a quem fala inglês desde criança, e passa a ser algo mais simples e mais digno: uma porta que se abre sem pedir sobrenome, diploma ou passaporte. Aprender a usar uma ferramenta nova, hoje, não exige mais o longo noviciado técnico de antes; exige sobretudo a coragem modesta de começar, a paciência de errar, e a companhia de quem já trilhou o caminho. Os antigos sabiam que o conhecimento, ao contrário do ouro, é da rara espécie de bem que se multiplica quando partilhado, e que não diminui em quem o entrega. Bem compreendido, o conhecimento é menos uma posse do que uma travessia: a ponte silenciosa entre a vida que herdamos e a vida que ainda temos razões para querer.

E é talvez essa lenta redistribuição do possível, e não a sorte de um endereço, que valha a pena reaprender a esperar: a confiança paciente de que o futuro não é privilégio de quem nasceu perto do centro, mas direito de quem aceita atravessar; sem pressa, sem pedir licença, e sem nunca mais confundir distância com destino.

Consultoria

Plano personalizado

Converse com um especialista para transformar dúvidas em próximos passos.

Agendar diagnóstico

Newsletter

Conteúdo no e-mail

Mobilidade internacional, sem ruído.

Substack

Continue lendo