Internacionalização Não Resolve Tudo — Mas Pode Reorganizar Sua Vida
Uma mudança internacional não conserta a vida por mágica, mas pode forçar a clareza que faltava para reorganizar prioridades, rotina e direção.

Há uma promessa muito repetida segundo a qual o crescimento pessoal seria a chave de uma vida melhor, como se houvesse uma porta única, e uma só chave, e bastasse girá-la. A imagem reconforta, e por isso vende bem. E, no entanto, ela esconde uma dificuldade que todos, no íntimo, conhecemos: crescer não é abrir uma porta de uma vez, mas aceitar atravessar, muitas vezes e com algum medo, os limiares que preferiríamos contornar.
1. A palavra gasta e o que ela esconde
Poucas expressões foram tão desgastadas quanto crescimento pessoal, e talvez por isso desconfiemos dela. Repetida em excesso, virou sinônimo de otimização, de produtividade, de uma versão melhorada de nós a ser exibida. E, no entanto, em sua acepção mais antiga e mais digna, crescer significava outra coisa, mais grave e mais lenta: tornar-se capaz de suportar a complexidade do mundo sem dela fugir, e de habitar a própria vida com menos ilusão e mais ternura.
2. Montaigne e a viagem que lima o espírito
Convém aqui a companhia de um homem do século XVI. Em 1580, um fidalgo do interior da França, Michel de Montaigne, deixou sua torre e seus livros e partiu numa longa viagem por terras estrangeiras, em parte para tratar de uma doença, em parte por inquietação. Dizia ele que o convívio com gente de outros costumes serve para limar e polir o nosso juízo contra o dos outros, livrando-nos da estreiteza de quem só conheceu o próprio quintal. Não chamava seus escritos de tratados, mas de essais, isto é, tentativas, ensaios, provas, palavra modesta que confessava não saber de antemão aonde chegaria. Crescer, para ele, era menos acumular certezas do que perder, com alguma elegância, algumas.

3. O crescimento que pede uma fronteira
Disso decorre uma intuição cara a quem nasceu longe dos centros. Há um limite para o quanto se amadurece sem nunca sair: o bairro que conhecemos demais devolve sempre a mesma imagem de nós. Cruzar uma fronteira, seja a de um país, a de um idioma ou a de um ofício, não é fuga; é exposição voluntária ao que ainda não somos. E é justamente no atrito com o desconhecido, no incômodo de não entender e de ser mal-entendido, que o caráter, à maneira de uma pedra no leito de um rio, vai perdendo as arestas que doíam nos outros e em nós.
4. Uma vida melhor, mais honestamente definida
E talvez seja preciso, então, refazer a promessa do começo. Uma vida melhor não é a que elimina a dificuldade, mas a que a enfrenta com mais recursos interiores; não a que evita a perda, mas a que aprende a atravessá-la sem se desfazer. O crescimento pessoal, bem compreendido, não é uma chave que abre o sucesso; é a lenta aquisição de uma coragem serena, a de quem aceita não estar pronto e, ainda assim, parte.

E é talvez assim, sem a fantasia de uma chave única, que valha a pena pensar o crescimento: não como a porta que dá enfim para uma vida sem dor, mas como a estrada, por vezes solitária, em que vamos perdendo o medo de não saber; e cada fronteira cruzada, cada certeza deposta, cada cidade estranha onde aprendemos a viver é menos um fim alcançado do que um modesto e teimoso recomeço.
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