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Olcan Blog30 de agosto de 20262 minRevisado em 31 de agosto de 2026

Cuiabá, ou como descobri que o meu próprio país também era estrangeiro

Cuiabá, ou como descobri que o meu próprio país também era estrangeiro Quando pensamos em sair da zona de conforto, imaginamos quase sempre um voo internacional, um idioma novo, um carimbo no passaporte. É uma imagem compreensível, e talvez por isso limitada....

Ciro Moraes dos Reis
Ciro Moraes dos Reis
Fundador · Olcan
Cuiabá, ou como descobri que o meu próprio país também era estrangeiro

Cuiabá, ou como descobri que o meu próprio país também era estrangeiro

Quando pensamos em sair da zona de conforto, imaginamos quase sempre um voo internacional, um idioma novo, um carimbo no passaporte. É uma imagem compreensível, e talvez por isso limitada. Porque uma das travessias que mais me formou não exigiu passaporte algum. Foi dentro do meu próprio país, quando, como trainee de um programa de gestão pública, me mudei da Bahia para Cuiabá, no coração do Brasil.

Eu havia atravessado oceanos antes disso. Havia morado fora, estudado fora, me sentido, em mais de um país, devidamente estrangeiro. E, no entanto, foi no Centro-Oeste, sob um calor diferente do calor baiano, em meio a uma cultura que eu presumia conhecer por ser brasileira, que redescobri a sensação de não entender por completo o lugar onde estava.

O Brasil, descobri, é muitos países fingindo serem um só.

Euclides da Cunha, que em 1902 escreveu sobre o sertão e sobre o abismo entre o Brasil do litoral e o Brasil profundo, dizia que estávamos condenados à civilização, e que mal conhecíamos o próprio território. Há algo de consolador e de incomodo nessa antiga lucidez. Mais de um século depois, ainda é possível, vindo de uma capital, sentir-se forasteiro na própria nação, diante de modos de viver, de decidir e de governar que não cabem nos manuais nem nas planilhas.

O que aprendi em Cuiabá não foi sobretudo uma técnica de gestão, embora houvesse muito disso. Foi uma forma de humildade geográfica. Entendi que servir ao público, naquele contexto, exigia menos as soluções importadas que eu trazia na mala e mais a paciência de escutar quem ali vivia havia muito tempo. As melhores ideias não eram as minhas. Eram as que nasciam do encontro entre o que eu havia visto fora e o que aquele lugar já sabia de si.

Essa é, talvez, a confusão mais comum de quem volta de uma experiência internacional cheio de referências. Imaginamos que o mundo desenvolvido tem as respostas e que basta aplicá-las. E então a realidade, teimosa, nos ensina que nenhuma boa prática sobrevive ao transplante sem antes ser traduzida, adaptada, quase reinventada para o chão em que vai cair.

Foi ali, no Centro-Oeste, que comecei a entender melhor por que tantos projetos bem-intencionados falham. Falham não por falta de técnica, mas por excesso de certeza, por essa pressa antiga de quem chega com a resposta pronta antes de ter compreendido a pergunta local.

Quando hoje converso com quem retorna do exterior ansioso por mudar o Brasil, ofereço menos fórmulas e mais escuta. O repertório internacional vale muito, mas vale sobretudo quando se cala um pouco e deixa o lugar falar primeiro.

E talvez seja essa a lição mais discreta de uma travessia interna: a de que conhecer o mundo não nos dispensa de conhecer o próprio país, e que há, dentro das nossas próprias fronteiras, uma quantidade de mundo suficiente para nos manter, a vida inteira, na condição honrosa de aprendizes.

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