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16 de junho de 20262 minRevisado em 31 de agosto de 2026

Aproveitando ao Máximo Sua Experiência de Estudo no Exterior

Diz-se que se deve aproveitar ao máximo uma temporada de estudos no exterior, e a frase, à primeira vista inofensiva, esconde uma armadilha. Aproveitar ao máximo costuma significar, na prática, fazer tudo: visitar cada cidade, frequentar cada evento, colecionar experiências como

Ciro Moraes dos Reis
Ciro Moraes dos Reis
Fundador · Olcan
Aproveitando ao Máximo Sua Experiência de Estudo no Exterior

Diz-se que se deve aproveitar ao máximo uma temporada de estudos no exterior, e a frase, à primeira vista inofensiva, esconde uma armadilha. Aproveitar ao máximo costuma significar, na prática, fazer tudo: visitar cada cidade, frequentar cada evento, colecionar experiências como quem preenche uma lista, com o relógio sempre a lembrar que o tempo é curto. E, no entanto, quem assim faz costuma voltar com a sensação estranha de não ter, propriamente, estado em lugar nenhum.

1. A pressa de não perder nada

Há uma forma de ansiedade que se disfarça de entusiasmo. Tememos desperdiçar a oportunidade, e por isso a enchemos de atividades, fotografamos mais do que vemos, e medimos o valor de cada dia pelo número de coisas feitas. É uma lógica de acúmulo aplicada ao tempo, e ela tem um custo silencioso: a experiência que não se digere não se torna nossa. Viver depressa demais é uma maneira sutil de não viver.

2. Baudelaire e a arte de caminhar sem pressa

Convém aqui a companhia de um poeta. Por volta de 1863, em Paris, Charles Baudelaire descreveu uma figura a que chamou de flâneur: aquele que caminha pela cidade sem destino fixo, demorando-se nas vitrines, nos rostos, na luz que muda, fazendo da atenção uma forma de conhecimento. O flâneur não visita a cidade; deixa-se impregnar por ela. Aprendia mais numa tarde de observação paciente do que outro aprenderia num mês de roteiro apertado, porque dava ao mundo o tempo de se revelar. A cidade, como as pessoas, só se entrega a quem não tem pressa.

3. A profundidade como forma de aproveitar

Disso decorre uma inversão consoladora. Aproveitar de verdade uma experiência no exterior talvez seja o contrário de maximizá-la: é escolher poucas coisas e vivê-las inteiramente. Uma amizade cultivada com calma vale mais que dez contatos superficiais; uma rua percorrida muitas vezes ensina mais que dez cidades vistas uma só vez; uma língua falada com erros e afeto fica para sempre, ao passo que mil fotografias se perdem na memória do telefone. O que fica não é o que vimos, mas aquilo a que nos demos o trabalho de prestar atenção.

4. O regresso de quem esteve presente

E é no regresso que se nota a diferença. Quem viveu correndo traz um inventário; quem viveu com atenção traz uma transformação. O primeiro saberá dizer onde esteve; o segundo terá sido, de algum modo, refeito por onde esteve. A diferença entre os dois não é de orçamento nem de sorte, mas de ritmo, e o ritmo é, felizmente, uma escolha ao alcance de quase todos.

E é talvez assim, e não acelerando, que se aproveita uma experiência no exterior: não somando lugares como quem teme perder o trem, mas demorando-se no pouco até que o pouco se torne fundo; pois o que de fato levamos de volta não é a quantidade dos dias, e sim a quieta e rara qualidade da presença.

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